Se você já frequentou qualquer banheiro público no Brasil são grandes as chances de ter se deparado com as frases filosóficas, engraçadas ou raivosas tipicamente rabiscadas atrás das portas. Há uma que me chama a atenção todas as semanas, escrita a letras garrafais no banheiro feminino do primeiro andar do prédio em que tenho aulas: "não é falta de serotonina, é excesso de capitalismo". Não seria uma afirmação surpreendente em se tratando do locus das ciências humanas na cidade, mas há algo de certo e de muito errado ao mesmo tempo com esta ideia.
Conversando com amigos em outras ocasiões, parece haver um consenso entre as pessoas de que o ímpeto do capitalismo em nos empurrar metas de vida é uma criação dos que têm poder para ganharem com o consumo e a expropriação do trabalho, e que sem isso o sistema não funcionaria e nós, por tabela, seríamos mais felizes. Mas eu tendo a ser cética com a ideia de que a necessidade de se ter um objetivo e acordar todos os dias e se esforçar foi ~criada pelo capitalismo, porque a lógica parece ser diferente: o capitalismo se moldou em torno de algo que é orgânico ao ser humano.
Falo do sistema dopaminérgico, um conjunto biológico de inputs e outputs de neurotransmissão tão primitivo quanto se pode ser. Wilner (1995) define que este sistema funciona como uma orientação à recompensa e dirige todo comportamento individual direcionado a uma meta. É ele que nos torna motivados a saciar a fome, a sede, o desejo por reprodução, em ser o vencedor em jogos e a cumprir com as tarefas de um checklist.
Mas o interessante mesmo é como ele se regula. Bom, o cérebro capta com muita eficiência a informação de que você está caminhando corretamente em direção a algo, e que por consequência o objeto de desejo está cada vez mais próximo. Ele te mantém constantemente motivado a chegar mais perto sintetizando doses cavalares de dopamina, e é tão potente em fazer isto que vemos com frequência esportistas sendo capazes de ignorar o tornozelo contundido em campo pela vitória no jogo mais crucial do campeonato.
Quando o objetivo é alcançado, entretanto, uma mudança ocorre. O sistema reduz bruscamente a dopamina - e o faz porque, embora a pizza seja de fato maravilhosa, você já está saciado, e deve estar motivado a fazer outras coisas além de esperar o motociclista do ifood tocar sua campanhia. Tecnicamente, você se torna feliz não necessariamente ao alcançar uma meta - mas ao caminhar progressivamente até ela.
Há dois equívocos comuns ao raciocínio de que o propósito de vida é uma ilusão criada pela estrutura socioeconômica ocidental para alienar nós meros mortais. O primeiro é ignorar o sistema dopaminérgico e acreditar que a vida sem obrigações e obstáculos traria obrigatoriamente uma felicidade quase hedônica. Em "Notes from Underground", Dostoevsky diz que o ser humano é fundamentalmente estranho, e que mesmo se ganhasse uma vida perfeita, de forma a apenas "dormir, comer bolo e se ocupar com a continuidade da espécie", provocaria alguma situação ruim para se rebelar contra tamanha satisfação e provar sua existência independente. Funny, but true.
O segundo é considerar que uma meta é igual a qualquer meta. A ação apropriada do sistema dopaminérgico só ocorre quando o propósito é valioso para você, e pouco se relaciona com a obrigação de fazer algo para o qual não há uma finalidade significativa de acordo com os seus próprios parâmetros. A implicação disso é que viver em torno de objetivos externos que não inspiram sua consciência pode ser clinicamente deprimente, enquanto descobrir um alvo extremamente valioso e relativamente possível te faz entrar em modo de orientação motivada, sob o qual quase tudo é tolerável.
Note que nada disso é uma defesa intencional do capitalismo, mas do propósito como condição fisiológica para uma vida com sentido. O sistema capitalista desregulado intensifica desigualdades - especialmente pela distribuição de Pareto -, pode gerar escassez de recursos totalmente contraprodutiva para qualquer conceitualização do futuro, além de reforçar em várias dimensões metas pouco significativas a nível individual como moedas de troca para a sobrevivência. Mas não há como fugir da orientação natural humana a um alvo pré determinado, e se isto em algum momento convergir para você com as convenções sociais capitalistas... bingo.
Apenas uma conclusão é possível pelo meu incômodo com o rabisco no banheiro da universidade. É que eu diria para a autora: pode até haver falta de serotonina ou excesso de capitalismo. Mas estes são problemas triviais comparados à ausência do sentido que te sustenta em meio ao mundo.
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