Ando recebendo visitas do passado, e abro as portas como quem passa o dia preparando a mesa do café da tarde. Elas chegam sutilmente, como flashbacks que preparam o plot de um drama épico. Desacordada convido à casa meus medos, os piores deles, e faço de um oásis o palco para a grande batalha. Não, ainda não. Já tenho brincado com a sorte de ensaiar há mil anos. Talvez ainda tenha direito a mais um ou outro até que o diretor anuncie o primeiro ato. Passo a noite navegando por mares mal resolvidos, enfrento com coragem, sucumbo à falha, aprendo mais pela dor e desmonto as trincheiras pela cura. Sou intensa em segredo, mas não descanso. Porque de olhos abertos cada centímetro grita uma história: são as musas da minha ilíada moderna. Só ela sabe da rua em que notei o vento do outono tocar minha pele pela primeira vez, das vielas que testemunharam os dois amantes inconsequentes, ou do jeito com que o mar cobriu meus pés e acalmou meu coração acelerado. Sabe também do acalento em minh'alma com a visita do menino peralta, aquele mesmo que é o que mais me fez rir. Me viu e avisou que a luz do quarto ainda estava acesa. Bordamos uma década de um fio invisível eterno, os dois únicos, sob o luar de quem já fomos. E por que não fomos? Eu me lembro da praia, ele se lembra da ladeira da saudade. Então suspeito o que tenha sido. Mas não há aflição, dou um riso ao pensar que em algum baú por esta ilha ainda existe aquela foto juntos da formatura. Registro tão raro como a polaroid que passei a guardar na bolsa, meta-poesia de uma amizade de 20 anos. Pediram-me apenas um dia para esparramarmos na cama juntas e rirmos de tudo que já se foi, e o fizemos até meus olhos desaguarem por amá-las tanto. À mesa do café, fito agora em nostalgia as visitas que chegaram sem qualquer prenúncio. É que nas cidades cruéis em que vivi sempre deixei parte de mim, e a busca por lugar seguro hoje ainda ressona aos que já o foram em algum momento. Mas pouco preciso dizer - elas quase em uníssono se antecipam aos dias contados da longa jornada. Trazem-me sem quaisquer rodeios o presente do reencontro com quem fui. Lembram-me de que não há heróis sem cicatrizes, que se há um jogo já sei entrar com os dois pés, que no fechar das cortinas e apagar das luzes eu ainda terei como enxergar. Sim, posso andar no escuro sozinha. E este é o ponto de não retorno. Eu olho para fora e vejo o astro mor pouco a pouco se pondo à oeste; despeço-me de quem me trouxe até aqui. Ouço o compasso das batidas e encaro a noite de peito aberto, é o que se espera de uma epopeia. Pergunto-me se pela noite terei vislumbres deste mesmo passado. Quem sabe nesta ou noutra vida, ainda veja o cometa Halley...
Sim, caro(a) leitor(a). Chegou o dia em que eu finalmente escreverei sobre a Taylor Swift. Eu já ouvi diversas vezes de algumas pessoas - inclusive mulheres - que o que mais as incomoda com a Taylor é sua infantilidade. Que uma mulher no auge dos seus 34 anos deveria saber mais do que empilhar músicas sobre seus curtos romances, sofrimentos e rixas passadas. Outros ainda mencionam que um agravamento disso é a musicalidade de qualidade questionável - cada gosto é um gosto, mas só quem já perdeu a noção do tempo com a nostalgia de "Seven" e "Coney Island" entenderia a complexidade artística da cantora - e que seu avassalador sucesso é totalmente desproporcional. Veja, o meu objetivo aqui não é rebater nenhuma destas afirmações. Pelo contrário, mesmo fã assumida se eu dissesse que não há ao menos 2 músicas quase insuportáveis em cada um dos 11 álbuns estaria sendo absolutamente leviana. Só que eu acho que a quebra massiva de recordes, os shows lotados em segundos e o...
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