Sim, caro(a) leitor(a). Chegou o dia em que eu finalmente escreverei sobre a Taylor Swift.
Eu já ouvi diversas vezes de algumas pessoas - inclusive mulheres - que o que mais as incomoda com a Taylor é sua infantilidade. Que uma mulher no auge dos seus 34 anos deveria saber mais do que empilhar músicas sobre seus curtos romances, sofrimentos e rixas passadas. Outros ainda mencionam que um agravamento disso é a musicalidade de qualidade questionável - cada gosto é um gosto, mas só quem já perdeu a noção do tempo com a nostalgia de "Seven" e "Coney Island" entenderia a complexidade artística da cantora - e que seu avassalador sucesso é totalmente desproporcional.
Veja, o meu objetivo aqui não é rebater nenhuma destas afirmações. Pelo contrário, mesmo fã assumida se eu dissesse que não há ao menos 2 músicas quase insuportáveis em cada um dos 11 álbuns estaria sendo absolutamente leviana. Só que eu acho que a quebra massiva de recordes, os shows lotados em segundos e os charts mundiais dominados por meses merecem um questionamento específico, em especial por sua sustentação consistente por quase 15 anos:
Por que diabos gerações de mulheres amam Taylor Swift?
A resposta para mim começa nos romances clássicos dos anos 40 e 50s. Entre "...E o vento levou", "Romeu e Julieta" e "Sabrina", mulheres eram com frequência dramatizadas como figuras absolutamente love-oriented, entregues à paixão e altíssimas em neuroticismo. Quase como uma caricatura do feminino, as ações e personalidades das "mocinhas" costumavam ser retratadas como o oposto perfeito da postura forte, patriarcal e ambiciosa dos homens que iam à guerra. É evidente que isso foi mudando com o avançar do século, e as mulheres em Hollywood se tornaram mais multidimensionais, excêntricas, com dinâmicas de vida muito mais complexas do que a centralização do romance parecia indicar.
Mas enquanto a arte cumpre seu papel de refletir as transformações da sociedade, algumas nuances podem ficar de escanteio. Uma delas parece ser a dose de romanticidade quase ingênua que a maioria de nós desenvolve desde o início da adolescência, e que com a maturidade vai dando espaço à racionalidade, ao "ver as coisas como elas realmente são", com mais controle sobre os níveis estratosféricos de oxitocina que correm pelo sistema nervoso. Há por óbvio também aquilo que eu chamaria de "pressões" (por falta de termo mais adequado) para que a igualdade entre os gêneros se estenda ao comportamento - sejam de origem social, profissional ou acadêmica. É como se qualquer traço de romantização feminina devesse ser acorrentado a mil chaves no fundo do oceano mais próximo por ser... patriarcal demais.
Voltemos à Taylor e, de quebra, ao "The Tortured Poets Department", álbum até então muito especulado como o ápice do sofrimento de uma mulher pelo fim de seu longo relacionamento de quase 7 anos. Fãs pelo mundo inteiro aguardavam o relógio mostrar 00:00, lenços à mão, para acompanhar as ~31 músicas que contariam uma história trágica de amor perfeito que não deu certo.
Mas o choque não poderia ter sido maior.
O twitter foi à loucura quando as pessoas perceberam que sobre aquele relacionamento idealizado a cantora pouco disse - reservou-se a fechar sua história com o ex inglês na linda "So long, London". A inspiração do álbum foi mesmo o affair de 2 meses que ela se envolveu logo depois, o que ficou evidente pelas músicas absolutamente descritivas cujas letras pareciam ter sido retiradas de um diário trancado no fundo do guarda-roupas (que jamais deveria ser lido sequer pela melhor amiga).
Em "The Prophecy", Taylor conta - inacreditavelmente - como, ajoelhada, implorou a Deus para que aquela paixão avassaladora parasse de escapar de suas mãos, como se perdê-lo fosse algo como uma maldição. E parece ter noção do quanto isso soa exagerado, já que em "Down Bad" canta em letras cruas a raiva de parecer completamente fora de si aos olhos de seus amigos por falar sobre como alguém com quem se envolveu por tão pouco tempo a fez se sentir.
For a moment, I was heavenstruckNow I'm down bad, cryin' at the gymEverything comes out teenage petulanceFuck it if I can't have him
Também detalha o total estado de negação sobre o fim na ótima "imgonnagetyouback", em que descreve a certeza ingênua de que o amado ainda a queira com base em sinais questionáveis - como um rápido olhar no bar. Dentre todas as outras canções que expressam as fases de um luto amoroso, ela finalmente dedica à aceitação a melhor música do álbum, "loml": o ludibriador e a tola, o esquema de amor rápido, o fim sacramentado por uma despedida sem graça.
Em um universo que já consagrou Beyoncé, Lauryn Hill e Madonna, talvez Taylor tenha produzido a representação mais fiel do como o estado puro de infatuation é capaz de dominar a racionalidade de quem o experimenta, sem qualquer pudor. Não porque é infantil, submisso ou exclusivo a adolescentes mimadas - mas porque é extremamente vulnerável. O mundo há tempos parece seguir em direção à exaltação de super-heroínas imparáveis e divas emocionalmente inquebráveis, mas qualquer mulher que preserva uma fração de sua sensibilidade inata sabe que a reação estóica a uma situação detrimental é produto de um processo longo, custoso e, por vezes... vergonhoso.
Fato é que nem toda música é pra todo mundo ou pra todo momento, mas eu acho que o público-alvo da maior artista da atualidade é muito bem definido. Trata-se de mulheres que se encaixam na categoria "envergonhadas demais para falar". E Taylor Swift é amada porque não é um ideal (e nunca foi), mas porque escreve como se estivesse tudo bem para qualquer mulher não o ser. E o faz sem qualquer sinal de derrotismo - há sempre um alento e uma história melhor por vir - seja qual for a situação.
E não é esta expectativa que move o feminino real no mundo?
Taylor descobriu como reduzir o abismo entre o auge da artista mais bem sucedida do século e as "Carolinas" do mundo mortal como poucas. E se "TTPD" foi um presente às que alguma vez já se sentiram completamente sozinhas com seus cadernos e uma taça de vinho, os 10 álbuns anteriores são para um sem-número de facetas possíveis do feminino: desde as que ainda veem o mundo como contos de um folclore em preto e branco, até as que, enfim, foram surpreendidas à luz do dia pelo mais dourado dos amores...
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