Quando somos bem pequenos, ainda limitados a um universo muito reduzido de pessoas, é comum que nossos pais/ cuidadores adotem a postura de nos incentivarem à socialização com nossos pares (as demais crianças com joelhos ralados no parquinho do bairro). Há um certo consenso em relação à importância deste processo de integração dos toddlers à brincadeira, já que aprendemos pela imitação e, quanto maior a variedade de modelos, maiores são as chances de absorvermos o que é um comportamento social desejável e os valores do certo e do errado.
Só que à medida em que vamos crescendo, quantidade passa a ser um aspecto secundário e o processo se inverte: há um filtro pessoal que se torna mais criterioso ao longo do tempo e identifica as pessoas que devem ou não ter acesso a você. É como se fosse uma "desintegração" social, que serve ao propósito de formar um ciclo menor com algum nível de afinidade e baseado em reciprocidade. O efeito a longo prazo é evidente: as animadas festas de aniversário infantis abarrotadas de crianças correndo vão pouco a pouco reduzindo em dimensão, até darem lugar a meia dúzia de amigos especiais que reservam a noite para te darem um abraço nos seus 25 anos.
Para mim, a consolidação dessa virada de chave foi em 2020, quando escolhi como critério ter ao meu lado apenas pessoas que genuinamente queriam o meu melhor e que me faziam alguém melhor. Houve muitas perdas - e elas nunca cessaram. Fato é que é um verdadeiro choque perceber que a manutenção de algumas relações não passa da insistência de bater em uma porta que não tem nada atrás, e que muitas pessoas que você tem em alta estima não fazem jus a este lugar.
Veja, isto não significa necessariamente que estas pessoas sejam ruins. Ser bom ou ser ruim é uma questão mais profunda, e mesmo seguindo critérios objetivos é necessário aceitar que defeitos nos tornam humanos e que algumas pessoas simplesmente não serão adequadas para serem suas amigas e vice-versa. É claro que algumas delas terão falhas graves de caráter, e estarão conscientemente dispostas a fazerem o mal por alguma razão, mas essas são a exceção, e parte normal da vida.
O importante é que a troca é justa: você deixa estas pessoas irem e as que ficam são absolutamente preciosas. São os que são all-in. Pessoas para quem você pode contar boas notícias, e elas vibrarão felizes junto a você, ou más notícias, e elas te oferecerão um ombro sem pensar duas vezes. Elas farão questão de te incluir em suas vidas, para que todos à volta saibam o porque de gostarem tanto de você. Ouvirão com bons ouvidos as suas ideias mais exóticas, e te farão saber sem medo quando você estiver errado. E o principal: te enviarão em torno de 300 reels por dia.
Do seu lado, você deve cultivá-las com o mesmo cuidado por quanto tempo for possível, mesmo sem nenhuma garantia de que isto será suficiente para mantê-las. Algumas dessas pessoas serão passageiras, seja por optarem por caminhos de vida distantes ou por evoluírem para uma versão delas que já não é mais conhecida. Mas, só por hoje, você as tem.
Quando olho para as minhas próprias amizades, há uma satisfação em saber que, mesmo tendo errado em muitos aspectos da vida, pelo menos uma coisa fiz certa: sou profundamente feliz pelas pessoas que escolhi manter comigo. E se sou uma determinista de coração, parte do motivo é que algumas delas parecem ter surgido diretamente dos céus nos momentos em que eu mais precisava, como presentes inesperados fora do dia do meu aniversário.
Não há uma razão em particular pela qual decidi escrever este texto, além de ser grata pelos meus amigos. Talvez seja a típica energia de fim de ano que me faz refletir sobre o que gostaria de levar para o próximo. E só por hoje, se eu pudesse apostar tudo, levaria todos eles.
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