Eu confesso que, durante os últimos dias, pensei minuciosamente sobre qual tema escolher para o primeiro texto do blog. Tive algumas boas ideias, mas a que se destacou surgiu hoje mesmo, de forma aleatória, em meio à conversa com uma amiga que passa junto comigo por uma semana atipicamente estressante e cansativa.
Períodos assim despertam meu lado mais cínico a respeito do nosso papel no mundo, já que os sentidos são contaminados pelas lentes do desconforto. E eu sempre me pego no pulo exatamente quando estou rumo à submissão a uma rotina pouco consciente, capaz de devorar perspectivas mais esperançosas de um futuro com as coisas que eu quero, e percebo o quão fácil é me deixar levar. Olhar por fora disso requer um baita esforço, mas eu acho que temos parte da culpa ao ceder mais do que queríamos ao mundo.
A maioria de nós leva a vida à sério demais. Eu acho que isso surge da nossa tendência natural a procurar por estabilidade em todas as dimensões possíveis - especialmente as que envolvem integrar-se às expectativas da ampla comunidade. Ninguém em sã consciência tem como meta de vida ser um estranho não reconhecido pelos pares, ou mesmo o underdog que decidiu arriscar uma vez e levou um baque tão grande da realidade que nunca mais conseguiu recuperar o potencial perdido. É a segurança de pertencer a situações, pessoas e condições que propicia um senso de adequação, mesmo que pouco disso seja o ideal ou que custe uma parte de si que você não estava realmente disposto a abrir mão.
Segundos.
São apenas segundos que separam um celular tocando de uma ligação com notícias avassaladoras. Alguém anda pela rua e em segundos de olhares trocados encontra o amor da vida. Um instante é o suficiente para alguém decidir que não irá mas tolerar algum comportamento, seu próprio ou dos outros. Em segundos pessoas marcam voos para o outro lado do planeta, e mergulham de cabeça no desconhecido.
Em segundos Arya Stark, em GOT, compreende que está em suas mãos mudar o destino do mundo. É também o tempo que leva Walter White para dizer assustadoramente "I am the danger", e transformar para sempre a forma como Skyler o vê em Breaking Bad. Rachel leva os mesmos segundos para decidir descer do avião, em uma cena que arranca um dos sorrisos mais unânimes dos telespectadores de Friends.
Neste espaço onde realidade e ficção convergem, a reflexão é de que tentar se apequenar a um papel pela adequação social é um preço muito caro a se pagar em uma compra sem garantias, já que o hoje informa muito pouco sobre o amanhã. Isto não é dizer que a vida em sociedade não exige de alguém a supressão de determinados aspectos de si mesmo - esta é uma questão mais profunda, que merece uma linha de raciocínio própria -, mas reconhecer que, dada a velocidade como as coisas mudam, nada pode te impedir de em um instante escolher uma representação do mundo na qual você, o protagonista, é ao mesmo tempo o herói e o anti-herói em uma jornada singular.
A vida é muito maior do que nós, mas às vezes parecemos querer fazê-la a menor possível. E eu não sou “Poliana” sobre disso: é absolutamente natural em alguns momentos apenas se deixar levar pela normalidade do cotidiano, ou mesmo se permitir sentir medo, cansaço, raiva e tristeza quando as coisas não vão bem. Mas isso não altera a satisfação que há em saber que os seus melhores dias provavelmente ainda estão por vir.
E em instantes, você se coloca de pé de novo.
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