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Levantar pesos é um super-poder?



Já são 4 meses desde o dia em que eu desisti do status de sedentária e passei a incluir exercícios físicos na minha rotina. Quase sempre no tradicional parque público próximo à minha casa, comecei pela corrida, já que queria fazer algo que fosse minimamente prazeroso (uma escolha irônica, porque a única maratona que eu me enxergava fazendo nos últimos tempos era a de séries da HBO acompanhada por pizzas). E eu passei a genuinamente gostar de correr. Só que uma vez, antes de ir para o parque, decidi passar pela academia e começar a levantar pesos - e foi uma grata surpresa.

Depois dos já calculados dias iniciais de imensa dor muscular, tornou-se completamente automático levantar todos os dias, tomar um bom café preto, acionar a minha playlist da SZA no Spotify e ir treinar. E começou a ser mais do que um hábito que o cardiologista aprovaria - em alguns momentos, foi a única meditação capaz de me permitir deixar qualquer sentimento negativo de lado e me sentir (muito) bem.

Há muitas boas explicações para isso: desde as ondas constantes de endorfina, a consciência corporal adquirida, até conhecer novas e ótimas pessoas na academia. São coisas que certamente tornam qualquer atividade física mais agradável, e que não são exclusivas da musculação. Mas, curiosamente, parece que há algo que só ela tem, tal qual um superpoder.

Eu acredito que tenha a ver com o fato de que, como um estoico, você está voluntariamente saindo do conforto de sua casa para fazer algo que sabe que é difícil e doloroso, ciente de que não há qualquer hipótese de alguém vir te salvar disso. E há uma informação importante sendo passada para o cérebro: a gratificação é tardia - durante cada série a mente tenta constantemente sucumbir ao conforto, e o corpo leva meses ou até anos para mudar - e mesmo sabendo disso você está disposto a aceitar o fardo.

E não é exatamente isso que separa humanos adultos de sua versão aos 2 anos de idade? 

Sacrificar algo hoje, por algo superior amanhã. Fato é que mesmo crescidos somos falhos neste princípio (alguns mais, outros nem tanto), até o ponto em que há momentos em que não há nada mais a ser feito além de sacrificar - tempo, pessoas, prazeres. Portanto, cada pequena gratificação atrasada aceita é indicativo para a mente não só de que você é forte o suficiente para tolerar desconfortos, mas que está bem equipado para fazer o necessário para ser melhor.

É possível que talvez o superpoder não esteja propriamente em levantar pesos, mas sim no processo de optar pelo compromisso de fazer isso como um sacrifício em abstração. E está tudo bem, para mim, Batman e sua disciplina sempre formaram um super-herói melhor do que o Superman. 

E na dúvida, levante pesos. Que mal faz?


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