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Tulsa Jesus Freak




wrapped do Spotify de 2023 não mente: Lana del Rey foi uma das minhas unanimidades durante os inúmeros altos e baixos deste ano. 
Mas esta não é uma preferência recente, já que escuto suas músicas desde o início da adolescência, quando o rádio ainda era uma companhia popular e os meus pais o ligavam na Antena 1 todas as manhãs, religiosamente. Entre os clássicos dos anos 70 e 80 que ecoavam pela nossa casa, a voz única da então debutante cantora sempre se destacava para mim, e se tornava um ícone da estética tumblr-sad-girl que marcaria minha geração.

Mas Lana é conhecida por mais do que isso - há a simplicidade com a qual leva a carreira e lida com os fãs, suas letras disruptivas e, de acordo com o twitter, seu republicanismo envergonhado (há muitas controvérsias). O fato de ser uma filósofa formada também a torna uma artista mais interessante, já que não hesita em brincar com ideias profundas e questionamentos existencialistas em quase todas as músicas. E este aspecto se junta com frequência a outro pelo qual ela também é muito conhecida: sua relação peculiar com o cristianismo.

Em Tulsa Jesus Freak, terceira música do bom Chemtrails, Lana flerta com as contradições da sua própria fé e parece desafiar qualquer entendimento tradicional cristão ao se apaixonar por um fanático religioso. Enquanto ele a evita pelo remorso do desvio dos preceitos da igreja, ela tenta convencê-lo a voltar à relação e aos seus hábitos boêmios, sob a perspectiva de que isto o manteria ainda mais ligado ao divino.

You should stay real close to Jesus
Keep that bottle at your hand, my man
Find your way back to my bed again
Sing me like a Bible hymn

Na música, Lana sugere que a devoção pelo relacionamento seria uma moeda de troca aceita por Deus em detrimento da típica conduta cristã, e que a obsessão mútua, embora árdua, seria a condição para não se desviarem da salvação. Mesmo eventuais pecados mundanos seriam toleráveis - contanto que tudo servisse à elevação do amor incondicional entre o casal. 

Em suma, ela rejeita a ideia de contenção na qual o amado se apoia: para aproximar-se de Jesus (a personificação do amor perfeito) ele deve primeiro acionar sua própria consciência, sacrificar seus medos e decidir por apenas amar.

Talvez TJF seja uma descrição dramatizada de uma ideia de cristianismo que não entre em choque com valores progressistas. Lana costuma ser criticada por ser assídua frequentadora da igreja católica e ao mesmo tempo possuir uma fanbase majoritariamente queer, o que inevitavelmente gera a necessidade de desconstituição de paradoxos. Por outro lado, talvez a música seja apenas uma homenagem em forma de romance trágico ao centro-oeste americano, inspiração aberta da cantora para o álbum. 

Mas a intenção da composição pode ficar em segundo plano neste caso: a voz divina acompanhada da melodia incrivelmente contagiante formam, sem dúvidas, uma obra de arte a ser contemplada.


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