Ele está presente na saga de Harry Potter como um dos bruxos mais temidos da ficção mundial, e na sincera "Reasons Not to Die" de Ryn Weaver como a pior versão possível de seu comportamento autodestrutivo. Ele é alguém, algo, tão ausente e ao mesmo tempo tão presente.
E que por hora, não deve ser nomeado.
Eu tenho pensado muito nele nos últimos tempos, e preciso escrever isso aqui porque talvez você o conheça e, como eu em algum momento do passado, não saiba exatamente como entender sua existência ao mesmo tempo avassaladora e silenciosa.
Mas antes de mais nada, preciso esclarecer que “ele” provavelmente não é o mesmo pra você do que é pra mim. Isto porque há um problema intrínseco à sua natureza - ele é aquilo que não é nomeado - portanto vive apenas num plano abstrato e sem definições não há como se comparar. Mas independente do que sejam, são comuns a eles as maneiras como se manifestam no plano geral, e há duas que são particularmente difíceis de lidar.
A primeira delas é quando a lembrança de sua existência é tão dolorosa, incômoda ou lamentável que nós simplesmente acreditamos - ou queremos acreditar - que não nomeá-lo é por algum motivo a resolução do mal resolvido. É o nome daquele(a) que você preferia nem ter conhecido, do lugar que não deveria ter ido, da frase constrangedora que não deveria ter falado, ou uma realidade da qual se dá conta. Não se fala diretamente, porque é como se a negação do que foi anulasse o que é: real.
Eu sinto em dizer (mesmo, por experiência própria), mas não é como se com tempo suficiente sem nomear ele cairá no limbo do esquecimento e finalmente os caminhos para a felicidade voltarão a se abrir na terra. Essa não é uma alternativa eficiente para a saúde mental, é apenas o recalque freudiano (damn! he can't keep getting away with it!), que na verdade tende a piorar a situação. Na prática, o físico e o metafísico se alinham mas não da forma desejada - o cérebro entende que se algo é tão tenebroso que não pode ser nem mencionado, deve ser mortal. Portanto, ao menor sinal do que remete sua existência, o organismo inteiro entra em estado de luta ou fuga e você... se pega tendo uma crise de ansiedade sentado no sofá, no meio do café da tarde.
A segunda maneira é mais ampla, e parece ser comum a muita gente. São as coisas que não devem ser ditas sobre o mundo. Fato é que o rei está nu e todos sabem, famílias e amigos conversam sobre ele, baixinho, mas nomear parece uma heresia aos virtuosos que garantem que se você o vê, é porque certamente não é sábio. E ignorar sua existência parece ser até confortável - você evita a fadiga e, de quebra, o medo de ser um alvo dos inquisidores.
O problema com isso é que, não sendo nomeado, o dragão cresce sem quaisquer limitações. Quando menos se espera, ele já é mais forte do que qualquer alma bem intencionada e é completamente incontrolável, e a verdade se torna apenas mais uma proposta entre as inúmeras relativizações possíveis. E não é como se fosse fácil confrontá-lo quando ainda era potencial, mas quando a cidade já está quase toda sendo destruída pelo fogo o silêncio é apenas a aceitação. E aos que sabiam nomear, resta olhar para trás e repetir como álibi "mas veja bem, quem poderia imaginar...".
Seja qual for o caso, eu aprendi que você precisa dizer. Porque manter a existência apenas no campo da abstração parece seguro, mas não nomeá-lo o faz crescer sem ser percebido. Diga o nome ao falar sobre ele e veja a névoa espaça de veneno se transformar na ponta de uma agulha: provavelmente doerá um pouco, mas você reconhecerá que é real, específico, e agora pode se concentrar em como lidar. Diga o que é, e qualquer consequência será ao menos a consequência da verdade, e será o fardo necessário em troca de transformar a vida em uma aventura.
E sim, caro(a) leitor(a), eu também acho que há coisas que simplesmente não devem ser ditas. E elas fazem parte do grupo quase unânime daquilo que não promove qualquer bem a ninguém, e todos nós sabemos de uma forma ou de outra o que são. Mas em tempos de debate sobre a liberdade de expressão, a arena primária de negociação parece ser entre você... e você mesmo.
"Call him Voldemort, Harry. Always use the proper name for things. Fear of a name increases fear of the thing itself."
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