Skip to main content

Paçocas, formigas, Alice in Wonderland et al!




Há algumas semanas acompanhei uma thread curiosa no Xwitter de um biológo que se propôs a filmar uma paçoca sendo devorada por formigas. O doce havia caído no chão do seu quintal por acidente, e ele aproveitou para fazer um histórico atualizado em tempo real na rede de como os insetos se organizariam para o comer. 

Só que o que tinha tudo para ser algo pouco interessante acabou se transformando numa thread viral: foram mais de 100 tweets que narravam em alta definição um Game of Thrones à parte, com direito a formigas com cabeças decepadas, túneis e trincheiras rapidamente construídas, enchentes avassaladoras e predação por outras espécies. Brutal. Tão brutal, que eu tive que me perguntar por que diabos elas se submeteriam a isso.

"É a luta instintiva pela sobrevivência, óbvio", um observador mais superficial pode pensar. De fato, uma paçoca inteira seria algo como ganhar na loteria entomológica para qualquer inseto. Seria apenas a constatação daquilo que Darwin documentou em torno da seleção dos grupos mais aptos à obtenção de recursos, um tipo de ~meritocracia biológica. É claro que algum indivíduo teria que se sacrificar eventualmente, mas estaria só cumprindo seu papel de soldado na organização social do formigueiro, tal como fazem abelhas ou mesmo lobos. Mas eu acho que a resposta é ainda mais simples: é porque elas não pensam.

Veja, como fã assumida do Animal Planet eu mesma acho muito difícil acreditar que os bichinhos não têm qualquer senso do racional para agir, porque há coisas que me deixam absolutamente pasma. Há um lagartinho que passa seus dias imitando uma cobra para enganar predadores. Uma leoa que oferece uma one-night-stand a um leão forasteiro para que ele não arrisque matar seus filhotes - herança genética de outro leão - suspeitando serem seus próprios. Há um fucking passarinho que convoca seus amigos para ensaiarem uma coreografia e ajudá-lo a conquistar uma fêmea. Parece tudo planejado e objetivo demais para se resumir a soluções evolutivas incutidas em código genético.

Mas a verdade é que se isso fosse um filme, o roteirista teria sido absolutamente sagaz.

Em “Alice in Wonderland”, Alice cai no submundo e se depara com a Rainha de Copas, que a avisa: “No meu reino, você precisa correr o mais rápido que puder apenas para ficar no mesmo lugar”. A frase foi utilizada pela biologia evolutiva para explicar que existe uma lógica de soma zero na natureza, porque o ganho de uma espécie significa perda para outra, que precisa superar sua condição atual para ter chances de sobreviver à nova realidade. 

Em outras palavras, a natureza é uma mãe devoradora e não há nada a ser feito quanto a isso, e é exatamente a constância deste problema existencial... que serve como garantia de continuidade à evolução. Se esta é uma teoria real, há problemas impossíveis de serem tratados e vencer nunca será uma opção na mesa. Fundamentalmente: viver seria irracional. E considerando que cada espécie exerce um papel único na terra, animais serem incapazes de raciocinar, portanto, é uma solução objetiva para que a roda continue girando e o mundo não chegue ao colapso. 

Mas se ao acaso uma espécie se torna capaz de encarar a realidade por algo como uma consciência, há um leque de problemas totalmente novo a ser resolvido. Em compensação às finadas formigas da paçoca, o cérebro hiperdesenvolvido humano nos trouxe num privilégio nunca observado na natureza: o de perder batalhas sem que este seja um fim quase instantâneo. Só que a contrapartida é substancial, já que ser derrotado várias vezes em uma só vida pode ser insuportável, e é quase inevitável questionar-se do porquê de se submeter à tamanha pressão. 

Daí, por um lado – e não à toa –, niilistas concluíram que apenas um enforcement moral poderia nos conduzir a um viver mecânico sem que a certeza do trágico e eminente fim nos consumisse, já que não haveria qualquer motivo coerente e otimista além do óbvio para a sobrevivência. Por outro, no disruptivo Man’s Search for Meaning, Victor Frankl detalha suas experiências como prisioneiro nos campos de concentração nazistas e conclui que seria possível algo como um meta-sentido na vida: a busca pelo significado geraria o significado.

Mas ainda que esta questão fosse superada, há de quebra o problema da linha do tempo. É tido como um fato que mesmo uma sequência ininterrupta de vitórias pouco ou nada importará em 500 anos, e tudo feito no agora será energia jogada ao vento. Terrível. Eu acredito que esta lógica por si só é discutível, mas a questão é que é possível escolher qualquer intervalo de tempo neste argumento, óbvio, e utilizá-lo apenas se for conveniente. Porque ninguém o usa para justificar, por exemplo, não agir quando precisa vestir um casaco para se proteger do frio, acalmar um bebê que chora ou... resistir ao botão de skip aos 5 segundos da propaganda no YouTube.

Felizmente, em meio às coisas impossíveis de se entender sobre a natureza, bichinhos simplificam a tarefa e fazem um baita trabalho participando da própria sobrevivência. É como se soubessem por instinto mais profundo que não há paradas, e que a qualquer momento a implacável rainha gritará “cortem-lhes as cabeças!”. E se eventualmente a paçoca acaba, o dia escurece e o inverno chega, nada parece mais racional do que fazer o mundo girar enquanto isso. E gira por aqui, enquanto escrevo acompanhada de um café com mel. Por sorte, abelhas não são niilistas...


Comments

Popular posts from this blog

ilíada

Ando recebendo visitas do passado, e abro as portas como quem passa o dia preparando a mesa do café da tarde. Elas chegam sutilmente, como flashbacks que preparam o plot de um drama épico. Desacordada convido à casa meus medos, os piores deles, e faço de um oásis o palco para a grande batalha. Não, ainda não. Já tenho brincado com a sorte de ensaiar há mil anos. Talvez ainda tenha direito a mais um ou outro até que o diretor anuncie o primeiro ato. Passo a noite navegando por mares mal resolvidos, enfrento com coragem, sucumbo à falha, aprendo mais pela dor e desmonto as trincheiras pela cura. Sou intensa em segredo, mas não descanso. Porque de olhos abertos cada centímetro grita uma história: são as musas da minha ilíada moderna. Só ela sabe da rua em que notei o vento do outono tocar minha pele pela primeira vez, das vielas que testemunharam os dois amantes inconsequentes, ou do jeito com que o mar cobriu meus pés e acalmou meu coração acelerado. Sabe também do acalento em minh'a...

O grito do feminino envergonhado?

Sim, caro(a) leitor(a). Chegou o dia em que eu finalmente escreverei sobre a Taylor Swift. Eu já ouvi diversas vezes de algumas pessoas - inclusive mulheres - que o que mais as incomoda com a Taylor é sua infantilidade. Que uma mulher no auge dos seus 34 anos deveria saber mais do que empilhar músicas sobre seus curtos romances, sofrimentos e rixas passadas. Outros ainda mencionam que um agravamento disso é a musicalidade de qualidade questionável - cada gosto é um gosto, mas só quem já perdeu a noção do tempo com a nostalgia de "Seven" e "Coney Island"  entenderia a complexidade artística da cantora - e que seu avassalador sucesso é totalmente desproporcional. Veja, o meu objetivo aqui não é rebater nenhuma destas afirmações. Pelo contrário, mesmo fã assumida se eu dissesse que não há ao menos 2 músicas quase insuportáveis  em cada um dos 11 álbuns estaria sendo absolutamente leviana. Só que eu acho que a quebra massiva de recordes, os shows lotados em segundos e o...

O neuro-capitalismo

Se você já frequentou qualquer banheiro público no Brasil são grandes as chances de ter se deparado com as frases filosóficas, engraçadas ou raivosas tipicamente rabiscadas atrás das portas. Há uma que me chama a atenção todas as semanas, escrita a letras garrafais no banheiro feminino do primeiro andar do prédio em que tenho aulas:  "não é falta de serotonina, é excesso de capitalismo" . Não seria uma afirmação surpreendente em se tratando do locus das ciências humanas na cidade, mas há algo de certo e de muito errado ao mesmo tempo com esta ideia. Conversando com amigos em outras ocasiões, parece haver um consenso entre as pessoas de que o ímpeto do capitalismo em nos empurrar metas de vida é uma criação dos que têm poder para ganharem com o consumo e a expropriação do trabalho, e que sem isso o sistema não funcionaria e nós, por tabela, seríamos mais felizes. Mas eu tendo a ser cética com a ideia de que a necessidade de se ter um objetivo e acordar todos os dias e se esfor...