Skip to main content

Posts

O neuro-capitalismo

Se você já frequentou qualquer banheiro público no Brasil são grandes as chances de ter se deparado com as frases filosóficas, engraçadas ou raivosas tipicamente rabiscadas atrás das portas. Há uma que me chama a atenção todas as semanas, escrita a letras garrafais no banheiro feminino do primeiro andar do prédio em que tenho aulas:  "não é falta de serotonina, é excesso de capitalismo" . Não seria uma afirmação surpreendente em se tratando do locus das ciências humanas na cidade, mas há algo de certo e de muito errado ao mesmo tempo com esta ideia. Conversando com amigos em outras ocasiões, parece haver um consenso entre as pessoas de que o ímpeto do capitalismo em nos empurrar metas de vida é uma criação dos que têm poder para ganharem com o consumo e a expropriação do trabalho, e que sem isso o sistema não funcionaria e nós, por tabela, seríamos mais felizes. Mas eu tendo a ser cética com a ideia de que a necessidade de se ter um objetivo e acordar todos os dias e se esfor...

Lessons from a woman

Today is Women's Day all over the world, and we can notice different reactions from people to the meaning of the date. Some take a moment to celebrate important women in their lives, others find it the ideal occasion to point the struggles of being one in modern society, and many also observe how far we came as artists, academics and other occupations. I myself took the time to reflect on the main things I've learned till this day about being a woman, and decided to transform some of it into rules that I follow and share it with other women in case it may be useful. Of course, I'm only in my 20's and obviously there are many people wiser than me at any age. But like every person in the world, I had my battles in life and was challenged to learn through them. The right path of knowledge is to be constantly improving, and although I believe this 5 rules represent who I am today, I might write 5 more in a couple of months based on what I discover about the world.  But if I...

Rascunho!! Evolucionismo & Casamento

Qual a função do casamento em sociedades ocidentais? A resposta tem raízes profundas, que extrapolam uma noção moderna comum de contrato civil em papel com fins de garantir direitos e obrigações a um casal e sua geração. Para entender seu objetivo, é necessário recorrer a uma análise histórica do surgimento e da evolução do relacionamento entre pares até o estágio institucional atual.   O princípio que alicerça o matrimônio, por vezes citado como seu sinônimo, é a monogamia. O surgimento das relações monogâmicas entre casais já foi em algum momento ligado pela antropologia à resolução do conflito sexual central entre homens e mulheres, notadamente, a preferência masculina por variedade de parceiras e a incerteza da paternidade coexistentes com a necessidade feminina de absoluto investimento do parceiro (dado o alto custo biológico, social e econômico de uma gestação e consequente demanda por investimento da prole) (Buss, 2004).  Mas o desenvolvimento ancestral do pair bon...

All-in

Quando somos bem pequenos, ainda limitados a um universo muito reduzido de pessoas, é comum que nossos pais/ cuidadores adotem a postura de nos incentivarem à socialização com nossos pares (as demais crianças com joelhos ralados no parquinho do bairro). Há um certo consenso em relação à importância deste processo de integração dos toddlers à brincadeira, já que aprendemos pela imitação e, quanto maior a variedade de modelos, maiores são as chances de absorvermos o que é um comportamento social desejável e os valores do certo e do errado.  Só que à medida em que vamos crescendo, quantidade passa a ser um aspecto secundário e o processo se inverte: há um filtro pessoal que se torna mais criterioso ao longo do tempo e identifica as pessoas que devem ou não ter acesso a você. É como se fosse uma "desintegração" social, que serve ao propósito de formar um ciclo menor com algum nível de afinidade e baseado em reciprocidade. O efeito a longo prazo é evidente: as animadas festas de...

Tulsa Jesus Freak

O  wrapped do Spotify de 2023 não mente: Lana del Rey foi uma das minhas unanimidades durante os inúmeros altos e baixos deste ano.   Mas esta não é uma preferência recente, já que escuto suas músicas desde o início da adolescência, quando o rádio ainda era uma companhia popular e os meus pais o ligavam na Antena 1 todas as manhãs, religiosamente. Entre os clássicos dos anos 70 e 80 que ecoavam pela nossa casa, a voz única da então debutante cantora sempre se destacava para mim, e se tornava um ícone da estética tumblr-sad-girl que marcaria minha geração. Mas Lana é conhecida por mais do que isso - há a simplicidade com a qual leva a carreira e lida com os fãs, suas letras disruptivas e, de acordo com o twitter, seu republicanismo envergonhado (há muitas controvérsias). O fato de ser uma filósofa formada também a torna uma artista mais interessante, já que não hesita em brincar com ideias profundas e questionamentos existencialistas em quase todas as músicas. E este aspecto s...

Rascunho!! The Big 5 Series: Introduction

What is a personality? According to Bleidorn, Hopwood & Lucas (2016) it can be defined by people's tendencies towards certain thoughts, feelings and behaviors that are to some extent consistent over time. Although this idea may appear somehow subjective, there are several practical ways of obtaining a relatively secure knowledge of how a person stand in those aspects. Scientifically, researchers have been using techniques such as brain activation variations (Oxley et al., 2008) and controlled questionnaires - putting emphasis on psychological traits. In this realm, many tests became popular even outside the scientific scope, and one of them stands out: the Big Five, or OCEAN. This model of personality analysis is constituted by five factors, each of them composed by two aspects: Openness (Intellect and Aesthetics), Conscientiousness (Industriousness and Orderliness), Extraversion (Enthusiasm and Assertiveness), Agreeableness (Compassion and Politeness) and Neuroticism (Withdraw...

Levantar pesos é um super-poder?

Já são 4 meses desde o dia em que eu desisti do status de sedentária e passei a incluir exercícios físicos na minha rotina. Quase sempre no tradicional parque público próximo à minha casa, comecei pela corrida, já que queria fazer algo que fosse minimamente prazeroso (uma escolha irônica, porque a única maratona que eu me enxergava fazendo nos últimos tempos era a de séries da HBO acompanhada por pizzas). E eu passei a genuinamente gostar de correr. Só que uma vez, antes de ir para o parque, decidi passar pela academia e começar a levantar pesos - e foi uma grata surpresa. Depois dos já calculados dias iniciais de imensa dor muscular, tornou-se completamente automático levantar todos os dias, tomar um bom café preto, acionar a minha playlist da SZA no Spotify e ir treinar. E começou a ser mais do que um hábito que o cardiologista aprovaria - em alguns momentos, foi a única meditação capaz de me permitir deixar qualquer sentimento negativo de lado e me sentir (muito) bem. Há muitas boa...

Entre um instante e o outro

"Understand this: the world wants to assign you a role in life.  And once you accept that role you are doomed."  Robert Grenne Eu confesso que, durante os últimos dias, pensei minuciosamente sobre qual tema escolher para o primeiro texto do blog. Tive algumas boas ideias, mas a que se destacou surgiu hoje mesmo, de forma aleatória, em meio à conversa com uma amiga que passa junto comigo por uma semana atipicamente estressante e cansativa.  Períodos assim despertam meu lado mais cínico a respeito do nosso papel no mundo, já que os sentidos são contaminados pelas lentes do desconforto. E eu sempre me pego no pulo exatamente quando estou rumo à submissão a uma rotina pouco consciente, capaz de devorar perspectivas mais esperançosas de um futuro com as coisas que eu quero, e percebo o quão fácil é me deixar levar. Olhar por fora disso requer um baita esforço, mas eu acho que temos parte da culpa ao ceder mais do que queríamos ao mundo. A maioria de nós leva a vida à sério dem...

[INTRO] Comece aqui!

Recentemente ouvi que, se você tem algo a dizer ao mundo, deve fazê-lo. Mesmo que o mundo em questão signifique meia dúzia dos seus amigos mais próximos, o exercício de trazer ideias à realidade palpável é condição inerente à sanidade humana. Mais do que isso, é uma via de mão dupla: o mundo te mostra que várias das suas ideias podem estar erradas (e você se torna um aprendiz melhor no processo), enquanto você, ao assumir um compromisso com a própria verdade, torna o mundo uma selva que faz um pouco mais de sentido.  Com este blog, tenho apenas o objetivo de usar a escrita como registro do que me interessa e desperta minha curiosidade. Poderia ser uma tarefa árdua, já que tudo que há merece ser observado com profunda atenção - é o que fazem artistas como pintores, poetas e músicos ao compactarem sua sensibilidade para nós, que, embebidos pela rotina, por vezes ignoramos as maravilhas à nossa volta. Sem a pretensão de um artista, no entanto, aqui irei descrever linhas de racioc...