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ilíada

Ando recebendo visitas do passado, e abro as portas como quem passa o dia preparando a mesa do café da tarde. Elas chegam sutilmente, como flashbacks que preparam o plot de um drama épico. Desacordada convido à casa meus medos, os piores deles, e faço de um oásis o palco para a grande batalha. Não, ainda não. Já tenho brincado com a sorte de ensaiar há mil anos. Talvez ainda tenha direito a mais um ou outro até que o diretor anuncie o primeiro ato. Passo a noite navegando por mares mal resolvidos, enfrento com coragem, sucumbo à falha, aprendo mais pela dor e desmonto as trincheiras pela cura. Sou intensa em segredo, mas não descanso. Porque de olhos abertos cada centímetro grita uma história: são as musas da minha ilíada moderna. Só ela sabe da rua em que notei o vento do outono tocar minha pele pela primeira vez, das vielas que testemunharam os dois amantes inconsequentes, ou do jeito com que o mar cobriu meus pés e acalmou meu coração acelerado. Sabe também do acalento em minh'a...
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O grito do feminino envergonhado?

Sim, caro(a) leitor(a). Chegou o dia em que eu finalmente escreverei sobre a Taylor Swift. Eu já ouvi diversas vezes de algumas pessoas - inclusive mulheres - que o que mais as incomoda com a Taylor é sua infantilidade. Que uma mulher no auge dos seus 34 anos deveria saber mais do que empilhar músicas sobre seus curtos romances, sofrimentos e rixas passadas. Outros ainda mencionam que um agravamento disso é a musicalidade de qualidade questionável - cada gosto é um gosto, mas só quem já perdeu a noção do tempo com a nostalgia de "Seven" e "Coney Island"  entenderia a complexidade artística da cantora - e que seu avassalador sucesso é totalmente desproporcional. Veja, o meu objetivo aqui não é rebater nenhuma destas afirmações. Pelo contrário, mesmo fã assumida se eu dissesse que não há ao menos 2 músicas quase insuportáveis  em cada um dos 11 álbuns estaria sendo absolutamente leviana. Só que eu acho que a quebra massiva de recordes, os shows lotados em segundos e o...

Paçocas, formigas, Alice in Wonderland et al!

Há algumas semanas acompanhei uma thread curiosa no Xwitter de um biológo que se propôs a filmar uma paçoca sendo devorada por formigas. O doce havia caído no chão do seu quintal por acidente, e ele aproveitou para fazer um histórico atualizado em tempo real na rede de como os insetos se organizariam para o comer.  Só que o que tinha tudo para ser algo pouco interessante acabou se transformando numa thread viral: foram mais de 100 tweets que narravam em alta definição um Game of Thrones à parte, com direito a formigas com cabeças decepadas, túneis e trincheiras rapidamente construídas, enchentes avassaladoras e predação por outras espécies. Brutal. Tão brutal, que eu tive que me perguntar por que diabos elas se submeteriam a isso. "É a luta instintiva pela sobrevivência, óbvio", um observador mais superficial pode pensar. De fato, uma paçoca inteira seria algo como ganhar na loteria entomológica para qualquer inseto. Seria apenas a constatação daquilo que Darwin documentou em...

Sobre aquele-que-não-deve-ser-nomeado

Ele está presente na saga de Harry Potter como um dos bruxos mais temidos da ficção mundial, e na sincera "Reasons Not to Die" de Ryn Weaver como a pior versão possível de seu comportamento autodestrutivo. Ele é alguém, algo, tão ausente e ao mesmo tempo tão presente. E que por hora, não deve ser nomeado. Eu tenho pensado muito nele nos últimos tempos, e preciso escrever isso aqui porque talvez você o conheça e, como eu em algum momento do passado, não saiba exatamente como entender sua existência ao mesmo tempo avassaladora e silenciosa.  Mas antes de mais nada, preciso esclarecer que “ele” provavelmente não é o mesmo pra você do que é pra mim. Isto porque há um problema intrínseco à sua natureza - ele é aquilo que não é nomeado - portanto vive apenas num plano abstrato e sem definições não há como se comparar. Mas independente do que sejam, são comuns a eles as maneiras como se manifestam no plano geral, e há duas que são particularmente difíceis de lidar. A primeira delas ...

O neuro-capitalismo

Se você já frequentou qualquer banheiro público no Brasil são grandes as chances de ter se deparado com as frases filosóficas, engraçadas ou raivosas tipicamente rabiscadas atrás das portas. Há uma que me chama a atenção todas as semanas, escrita a letras garrafais no banheiro feminino do primeiro andar do prédio em que tenho aulas:  "não é falta de serotonina, é excesso de capitalismo" . Não seria uma afirmação surpreendente em se tratando do locus das ciências humanas na cidade, mas há algo de certo e de muito errado ao mesmo tempo com esta ideia. Conversando com amigos em outras ocasiões, parece haver um consenso entre as pessoas de que o ímpeto do capitalismo em nos empurrar metas de vida é uma criação dos que têm poder para ganharem com o consumo e a expropriação do trabalho, e que sem isso o sistema não funcionaria e nós, por tabela, seríamos mais felizes. Mas eu tendo a ser cética com a ideia de que a necessidade de se ter um objetivo e acordar todos os dias e se esfor...

Lessons from a woman

Today is Women's Day all over the world, and we can notice different reactions from people to the meaning of the date. Some take a moment to celebrate important women in their lives, others find it the ideal occasion to point the struggles of being one in modern society, and many also observe how far we came as artists, academics and other occupations. I myself took the time to reflect on the main things I've learned till this day about being a woman, and decided to transform some of it into rules that I follow and share it with other women in case it may be useful. Of course, I'm only in my 20's and obviously there are many people wiser than me at any age. But like every person in the world, I had my battles in life and was challenged to learn through them. The right path of knowledge is to be constantly improving, and although I believe this 5 rules represent who I am today, I might write 5 more in a couple of months based on what I discover about the world.  But if I...

Rascunho!! Evolucionismo & Casamento

Qual a função do casamento em sociedades ocidentais? A resposta tem raízes profundas, que extrapolam uma noção moderna comum de contrato civil em papel com fins de garantir direitos e obrigações a um casal e sua geração. Para entender seu objetivo, é necessário recorrer a uma análise histórica do surgimento e da evolução do relacionamento entre pares até o estágio institucional atual.   O princípio que alicerça o matrimônio, por vezes citado como seu sinônimo, é a monogamia. O surgimento das relações monogâmicas entre casais já foi em algum momento ligado pela antropologia à resolução do conflito sexual central entre homens e mulheres, notadamente, a preferência masculina por variedade de parceiras e a incerteza da paternidade coexistentes com a necessidade feminina de absoluto investimento do parceiro (dado o alto custo biológico, social e econômico de uma gestação e consequente demanda por investimento da prole) (Buss, 2004).  Mas o desenvolvimento ancestral do pair bon...

All-in

Quando somos bem pequenos, ainda limitados a um universo muito reduzido de pessoas, é comum que nossos pais/ cuidadores adotem a postura de nos incentivarem à socialização com nossos pares (as demais crianças com joelhos ralados no parquinho do bairro). Há um certo consenso em relação à importância deste processo de integração dos toddlers à brincadeira, já que aprendemos pela imitação e, quanto maior a variedade de modelos, maiores são as chances de absorvermos o que é um comportamento social desejável e os valores do certo e do errado.  Só que à medida em que vamos crescendo, quantidade passa a ser um aspecto secundário e o processo se inverte: há um filtro pessoal que se torna mais criterioso ao longo do tempo e identifica as pessoas que devem ou não ter acesso a você. É como se fosse uma "desintegração" social, que serve ao propósito de formar um ciclo menor com algum nível de afinidade e baseado em reciprocidade. O efeito a longo prazo é evidente: as animadas festas de...

Tulsa Jesus Freak

O  wrapped do Spotify de 2023 não mente: Lana del Rey foi uma das minhas unanimidades durante os inúmeros altos e baixos deste ano.   Mas esta não é uma preferência recente, já que escuto suas músicas desde o início da adolescência, quando o rádio ainda era uma companhia popular e os meus pais o ligavam na Antena 1 todas as manhãs, religiosamente. Entre os clássicos dos anos 70 e 80 que ecoavam pela nossa casa, a voz única da então debutante cantora sempre se destacava para mim, e se tornava um ícone da estética tumblr-sad-girl que marcaria minha geração. Mas Lana é conhecida por mais do que isso - há a simplicidade com a qual leva a carreira e lida com os fãs, suas letras disruptivas e, de acordo com o twitter, seu republicanismo envergonhado (há muitas controvérsias). O fato de ser uma filósofa formada também a torna uma artista mais interessante, já que não hesita em brincar com ideias profundas e questionamentos existencialistas em quase todas as músicas. E este aspecto s...

Rascunho!! The Big 5 Series: Introduction

What is a personality? According to Bleidorn, Hopwood & Lucas (2016) it can be defined by people's tendencies towards certain thoughts, feelings and behaviors that are to some extent consistent over time. Although this idea may appear somehow subjective, there are several practical ways of obtaining a relatively secure knowledge of how a person stand in those aspects. Scientifically, researchers have been using techniques such as brain activation variations (Oxley et al., 2008) and controlled questionnaires - putting emphasis on psychological traits. In this realm, many tests became popular even outside the scientific scope, and one of them stands out: the Big Five, or OCEAN. This model of personality analysis is constituted by five factors, each of them composed by two aspects: Openness (Intellect and Aesthetics), Conscientiousness (Industriousness and Orderliness), Extraversion (Enthusiasm and Assertiveness), Agreeableness (Compassion and Politeness) and Neuroticism (Withdraw...